O esquecimento é a arma mais letal do amor…

 

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By Kika Domingues

” (…) O esquecimento é a arma mais letal do amor, quem nos esquece é como se esquecesse de tudo o que fomos. Ou pior: que existimos. Quem ama e consegue esquecer é uma espécie de assassino: mata a realidade, apaga-a, revoga-a, transforma-a num pesadelo absurdo no qual somos obrigados a aprender outra vez a viver (…)” (Margarida Rebelo Pinto – Alma de pássaro)

Guardanapos de Papel Biromes Y Servilletas (Andrés Calamaro)

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O Poeta segundo  Andrés Calamaro. A mais incrível definição que já ouvi…

Na minha cidade tem poetas, poetas
Que chegam sem tambores nem trombetas
Trombetas e sempre aparecem quando
Menos aguardados, guardados, guardados
Entre livros e sapatos, em baús empoeirados
Saem de recônditos lugares, nos ares, nos ares
Onde vivem com seus pares, seus pares
Seus pares e convivem com fantasmas
Multicores de cores, de cores
Que te pintam as olheiras
E te pedem que não chores
Suas ilusões são repartidas, partidas
Partidas entre mortos e feridas, feridas
Feridas mas resistem com palavras
Confundidas, fundidas, fundidas
Ao seu triste passo lento
Pelas ruas e avenidas
Não desejam glorias nem medalhas, medalhas
Medalhas, se contentam
Com migalhas, migalhas, migalhas
De canções e brincadeiras com seus
Versos dispersos, dispersos
Obcecados pela busca de tesouros submersos
Fazem quatrocentos mil projetos
Projetos, projetos, que jamais são
Alcançados, cansados, cansados nada disso
Importa enquanto eles escrevem, escrevem
Escrevem o que sabem que não sabem
E o que dizem que não devem
Andam pelas ruas os poetas, poetas, poetas
Como se fossem cometas, cometas, cometas
Num estranho céu de estrelas idiotas
E outras e outras
Cujo brilho sem barulho
Veste suas caudas tortas
Na minha cidade tem canetas, canetas, canetas
Esvaindo-se em milhares, milhares, milhares
De palavras retrocedendo-se confusas, confusas
Confusas, em delgados guardanapos
Feito moscas inconclusas
Andam pelas ruas escrevendo e vendo e vendo
Que eles vêem nos vão dizendo, dizendo
E sendo eles poetas de verdade
Enquanto espiam e piram e piram
Não se cansam de falar
Do que eles juram que não viram
Olham para o céu esses poetas, poetas, poetas
Como se fossem lunetas, lunetas, lunáticas
Lançadas ao espaço e ao mundo inteiro
Inteiro, inteiro, fossem vendo pra
Depois voltar pro …

(versão em português)

 

 

 

Eternidade…

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Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo o dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo o dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.

Cecília Meireles

Ferreira Gullar – 04/12/2016 :(

Foto: Eder Chiodetto

Foto: Eder Chiodetto

Um país sem “pão” e com muita poesia…

Ferreira Gullar

Não há vagas

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão
O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras
– porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”
Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço
O poema, senhores,
não fede
nem cheira.

é proibido pisar na grama…

By Kika Domingues

By Kika Domingues

é proibido pisar na grama, diz a placa
mas não foi a grama quem proibiu
a grama tem saudades do menino, da bola
da toalha do piquenique, do pique, do pega-pega
 
a placa é apenas um pedaço de lata pintada
portrait de uma sociedade que assim se crê consciente:
proíbe pisar na grama
e a amazônia segue sendo devastada
 
é proibido pisar na grama
mas não é grama quem diz
e a placa é apenas um pedaço de lata pintada
por um funcionário que mal sabe desenhar as letras em ordem
em nome da ordem
de uma sociedade que assim se crê organizada:
enquanto uns permanecem semianalfabetos
a poucos, o paraíso
 
ordem e progresso
é proibido pisar na grama mas
pisar na gente
é permitido

  por Paulo DAuria

PORQUE EU SEMPRE ESCOLHO O AMOR…

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O amor é procurar cabelos para completar as mãos,
é procurar o que não se viveu para contar.
É esperar o sol aquecer o lado ileso da cama.
É não apagar direito a ausência, a letra, o cheiro.
É insistir com respostas sem as perguntas.
Adiar o amor ainda é cumpri-lo. Fingir que não se sente é exercê-lo.
O amor devora os sobreviventes.
Não lembra do pente, da navalha, da tesoura de unhas, do jornal, do abajur.
O amor não lembra do que precisa.
Amor é não precisar de nada.
É precisar do que acontece depois do nada, ainda que não aconteça.
O amor confunde para se chegar ao mistério.
Embaralha para não se ouvir. Perde-se no próprio amor a capacidade de amar.
Amor é comer a fruta do chão. O chão da fruta.
O amor queima os papéis, os compromissos, os telefones onde havia nomes.
O amor não se demora em versos, se demora no assobio do que poderia ser um verso.
O amor é uma amizade que não foi compreendida, uma lealdade que foi quebrada.
O amor é um desencontro por dentro.’
(Fabrício Carpinejar)