A resposta está soprando no vento…

Bob Dylan por Marília Gabriela

O mundo muda?

Porque o apelo contido na poesia de Bob Dylan cabe como uma luva para o que vivemos nos dias atuais…

Post inspirado por Marília Gabriela em seu perfil no Instagram

”É triste, mas também é bonito, sabem…” reflexão

Para refletirmos… incrível ❤️ texto de uma brasileira (sem assinatura) que vive na Itália….. março/2020

Caros amigos,

Essa é nossa segunda semana de quarentena coletiva em Roma. Primeiro foram as escolas e muita gente passou a trabalhar em casa, deixar as crianças com os avós não é uma opção. Fomos orientados a não sair e evitar lugares fechados e aglomerados.

Até que essa semana o governo “fechou” a Itália.

Agora somos autorizados a sair apenas para trabalhar (os que ainda saem para trabalhar), fazer compras ou ir para o hospital. Nada mais.
A natação e a capoeira das crianças estão fechadas, o dentista desmarcou a consulta do meu filho e sábado não vai ter o jogo do campeonato de futebol dele, a cia aérea cancelou minha passagem para Madrid, também não vai ter o show da Gal, a faculdade avisou que tampouco tem data para a próxima prova. As escolas já trabalham com a possibilidade de seguirem fechadas até maio.
O país inteiro fechou.

Nós também nos fechamos nesse novo arranjo doméstico porque eu ainda tenho que estudar, Gui ainda tem que trabalhar e Gael tem o cronograma da escola para cumprir. A professora tem nos orientado remotamente sobre o conteúdo de cada dia e nos vemos professores dos nossos filhos, ás voltas com o neolítico e os verbos auxiliares. Não sei o que seria de nós sem o Google.
Anita se encarrega de dar o toque de fim de mundo colocando a casa abaixo enquanto eu mando ela deixar Gael terminar o compiti de italiano.

Passamos o dia de pijama. Vi uma vizinha receber o correio de luvas, ninguém mais pega o mesmo elevador, sobe um vizinho de cada vez, é o protocolo.

Ontem fui ao mercado. Na rua, as poucas pessoas usavam luvas cirúrgicas e, na falta de máscara, lenço ou cachecol cobrindo o nariz. Fila na porta, todos respeitando a orientação de manter distância uns dos outros, a entrada contingenciada, mais gente fora do que dentro do mercado. Cinco de cada vez.
Ninguém reclama.
Pela primeira vez em 6 anos não sou a única com carrinho lá dentro, os italianos, em geral, só compram o que podem carregar, mas agora estão fazendo dispensa e já faltam alguns produtos nas prateleiras. Um corredor para cada pessoa, ninguém se esbarra, o alto-falante fica repetindo para respeitarmos a distância mínima. Na volta pra casa, reparo o comércio fechado, os poucos cafés abertos espaçaram as mesas mas estão desertos. Estamos todos isolados em casa.

Ontem, depois do anúncio da OMS decretando a pandemia, outros países começaram a adotar as mesmas medidas para deter o avanço do vírus que, por menos letal que seja, contamina tanto que mata muito. Na maioria dos casos, idosos e pessoas com imunidade baixa e doenças pregressas. Mas não só elas.

A flor no asfalto é a solidariedade. Não vejo, entre as pessoas de meu convívio, pânico de ficar doente ou medo pelas nossas crianças que, ao que parece, não são páreo para o coronavírus. Mas estamos todos cuidando de quem não tem defesas suficientes para ele. Eu cuido do morador de rua que dorme no frio, embaixo da marquise do meu prédio, das senhorinhas que cumprimento no mercado, do senhor da loja de molduras. E, aqui em Roma, essas pessoas viraram a prioridade de todos. Pensamos coletivamente numa onda de cuidado com o outro, esse desconhecido, que eu nunca tinha vivido antes. As crianças aprenderam a “tossir nos cotovelos” e o fazem até em casa. Foram ensinadas que são estratégicas para conter a ameaça.

É triste, mas também é bonito, sabem?

Como escreveu por aqui meu amigo Francesco, não há saída que não passe pela reconstrução paciente de uma resposta coletiva aos desafios. Talvez seja didático estarmos vivendo, todos, ao mesmo tempo, essa crise. Fica evidente que o engajamento de cada um de nós, pessoa a pessoa, é a melhor, se não a única, defesa diante a pandemia. Ninguém pode dar-se ao luxo de ser negligente. Acho que ficaremos com um aprendizado importante depois que tudo isso passar.

Também pela primeira vez testamos uma nova organização do trabalho. Ao mesmo tempo pessoas do mundo todo estão trabalhando de casa, empresas e repartições com carga horária e staff reduzidos. Talvez esteja sendo estabelecido um novo paradigma. Ainda não sabemos qual será o saldo, a história nos ensina que evolução nem sempre é progresso. Mas eu, que não posso evitar a esperança, acredito que tiraremos proveito desses dias de isolamento, quando não podemos sequer nos abraçar, tocar e beijar. E, apesar disso, acredito que esse vírus também possa desencubar a humanidade em nós.

Mas faremos esse balanço depois.

Por hora, lavem as mãos, ensinem as crianças, cuidem dos idosos e, se puderem, amigos, fiquem em casa. E mandem seus funcionários para casa. Não viajem. É preciso identificar e curar os que contraíram a doença antes que ela se espalhe. O vírus já está aí, no nosso Brasil, não o subestimem. Cobrem das autoridades, não acreditem em quem diz que “é só uma gripe”, – eu já fui essa pessoa – não é! Não paguem para ver porque o preço é a vida dos mais frágeis entre nós. As teorias conspiratórias só distraem até que os médicos comecem a escolher quem, entre os necessitados, irão entubar. Até que morra a avó de um amiguinho dos nossos filhos. Até que o colega de trabalho safenado fique entre a vida e a morte numa UTI.
O momento não é de pânico, mas de cuidado e responsabilidade. E união e solidariedade.

Essa mensagem é também um agradecimento pela preocupação e carinho que tenho recebido nos últimos dias. Muito obrigada, aqueceu meu coração nesse inverno que ainda persiste por aqui. Mas estamos todos diante o mesmo desafio, meus caros, é preciso assumir esse compromisso.

Há um mês a China era longe, há três semanas a Lombardia também era. Quando começou a quarentena eu também me revezava, junto com outras mães e pais, nos grupos de WhatsApp, entre o desespero de ter que encaixar as crianças, de repente, nos compromissos dos dias úteis e os memes – como nós, os italianos também reagem com bom humor às adversidades. Hoje, em Roma, já não podemos ignorar que o mundo diminuiu e que hoje somos todos vizinhos.

Desejo que meus conterrâneos não deem chance para a doença no calor de nossa terra.

Cuidem-se. Uns dos outros. Fiquem firmes. Sairemos melhores dessa.

Fotografia, café e poesia… Paz…

Marco Zero (Recife Antigo) – café são braz
by Kika Domingues

Vagando entre o sonho e a realidade,
mergulho os pensamentos
na xícara de café,
quebro uma casquinha de pão nos dentes
no lirismo das 4 da tarde.

A cafeteria num ponto mágico
me traz a luz da rua
e a energia vital
desprendida das coisas paradas,
é como se eu pudesse ver
as verdades alheias.

Movimento da rua
feito de passos largos
e um homem inerte
que capturo com o olhar
em silêncio num banco,
momento que pressinto
paz e calmaria.

Mergulho os olhos na
xícara de café
imóvel
a colher move
meus olhos parados…

A xícara e o café
de um se faz o outro
eternos…
Encanto que me tira
a pressa
e me faz desperta e atenta,
apaziguada e viva.

Ao redor da xícara de café,
há uma folha mágica,
de onde os versos emergem
e oculta a realidade,
provocando minha alma
para contar minha história:
a fala do silêncio,
de quem caminha…

Rosemary Chaia

viver no afeto…

Muro Alto – Ipojuca – Pernambuco – 30/ dez/ 1990 autorretrato

Há de ser leve
Um levar suave
Nada que entrave
Nossa vida breve
Tudo que me atreve

A seguir de fato
O caminho exato
Da delicadeza
De ter a certeza
De viver no afeto
Só viver no afeto

Lenine ( leve e suave)

ORAÇÃO DE ABANDONO DO PADRE DE FOUCAULD

By Kika Domingues – Praia de Boa Viagem – 10/2019

Meu Pai,

Eu me abandono a Ti.
Faz de mim
O que te agradar.

Não importa o que faças de mim,
Eu te agradeço.
Estou pronto a tudo,
Eu aceito tudo.

Tomara que tua vontade 
Se faça em mim,
Em todas tuas criaturas,
Eu não desejo nada mais,
Meu Deus.

Eu coloco minha alma
Entre tuas mãos.
Eu a te dou, meu Deus,
Com todo o amor
Do meu coração,
Porque eu te amo,
E que é minha necessidade,
De me colocar em tuas mãos
Sem medida,
Com infinita confiança,
Pois Tu és meu Pai.

vida em viver…

By Kika Domingues
Recife – Boa Viagem – Ago/2019

A vida não é sobre quantas coisas eu posso comprar, sobre quão grande minha casa pode ser, ou até mesmo as imensas viagens que um dia poderei fazer. Se trabalho no sonho ou só trabalho.Qual o meu curso? Sou formada em quê? E ela ainda não é sobre o quanto erro; quem tá aqui pra contar? Mas é sobre o quanto acho vida em viver. A luz que nasce com o dia apesar de mim. Na brisa que mesmo assim, se fechar os olhos, posso sentir em meu rosto. No prazer de hoje. A vida é uma boa e calma leitura de entrelinhas. Deus não é difícil de encontrar.

@bellacrusoe

“roupa de viver…”

By Kika Domingues - meu jardim

By Kika Domingues – meu jardim

🌷Feliz Dia da Mulheres🌸

Todas as manhãs ela deixa os sonhos na cama, acorda e põe sua roupa de viver. Todas as manhãs ela caminha vagarosamente para pegar o ônibus que a levará para lugar nenhum, para ver ninguém. E todas as manhãs ela imagina como serão as tardes, já sabendo a resposta, finge ser feliz assim todas as manhãs. E todas as manhãs ela espera pela noite, ela espera assim arduamente para voltar para seu quarto, e ser triste. É quando ela sente que está assim completa. Completamente triste, mas completa. E quando ela tira a roupa e põe todo o seu corpo em baixo das cobertas quentes e sente que começa a sonhar, é quando ela sorri. Assim pra ninguém. Mas pra ela mesma. E viver vale a pena.

Porque eu me distraio…

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Feltragem por Fátima Rodrigues

“Ensina-me, Maria, neste advento, a querer, a velar, a guardar, a olhar para o meu interior sem me distrair. Porque eu me distraio. Ajuda-me a caminhar, como tu. Tu carregas Deus sem dizer nada. Isso me comove. Como eu gostaria de me parecer mais com você!
 
Tu carregas Deus em tua paz, em tua ternura, em tua misericórdia, na luz dos teus olhos, nesse teu jeito de estar preocupada pelos detalhes mais humanos, de acolher com teu olhar limpo, de deixar de pensar em ti para pensar no outro.
 
Teu ‘sim’ de Nazaré… Ah, quantos ‘sim’ saíram dos teus lábios, da tua alma! Agora, tu e José não veem mais que o hoje, mas confiam. Em breve, haverá outro passo a ser dado, e Deus lhes marcará esse pedaço de caminho com seus passos, dando-lhes luz.
 
Ajuda-me a ser assim, a dar o meu ‘sim’ nos passos que preciso dar hoje, e confiar em que, para os passos de amanhã, Deus estará comigo. ‘Sim’ ao hoje. ‘Sim’ a este passo.”

Eterno…

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By Kika Domingues (dispositivos móveis)

Ouvi no filme Palavras e Imagens  :)) com Clive Owen & Juliette Binoche

Soneto 18 

Se te comparo a um dia de verão
És por certo mais belo e mais ameno
O vento espalha as folhas pelo chão
E o tempo do verão é bem pequeno.

Às vezes brilha o Sol em demasia
Outras vezes desmaia com frieza;
O que é belo declina num só dia,
Na terna mutação da natureza.

Mas em ti o verão será eterno,
E a beleza que tens não perderás;
Nem chegarás da morte ao triste inverno:

Nestas linhas com o tempo crescerás.
E enquanto nesta terra houver um ser,
Meus versos vivos te farão viver.

O Homem Lúcido

Amor

By Kika Domingues

Texto lido no final do filme “Separações” (2002) do mestre Domingos de Oliveira; filme denso, repleto de diálogos e questionamentos sobre as nuances que envolve todas as etapas de um relacionamento de amor/paixão. Muito bom!!

Domingos José Soares de Oliveira foi um ator, diretor, dramaturgo de cinema e teatro, poeta e cineasta brasileiro.

Domingos Oliveira

Domingos José Soares de Oliveira: ator, diretor, dramaturgo de cinema e teatro, poeta e cineasta brasileiro. Wikipédia

O Homem Lúcido

O homem lúcido sabe que a vida é uma carga tamanha de acontecimentos e emoções que ele nunca se entusiasma com ela. Assim como ele nunca tem memórias. O homem lúcido sabe que o viver e o morrer são o mesmo em matéria de valor posto que a vida contém tantos sofrimentos que a sua cessação não pode ser considerada um mal.

O homem lúcido sabe que ele é o equilibrista na corda bamba da existência. Ele sabe que por opção ou por acidente é possível cair no abismo a qualquer momento interrompendo a sessão do circo.

Pode também o homem lúcido optar pela vida. Aí então ele esgotará todas as suas possibilidades. Ele passeará pelo seu campo aberto, pelas suas vielas floridas. Ele saberá ver a beleza em tudo! Ele terá amantes, amigos, ideais. Urdirá planos e os realizará. Resistirá aos infortúnios e até mesmo às doenças. E se atingido por um desses emissários saberá suportá-los com coragem e com mansidão.

E morrerá, o homem lúcido, de causas naturais e em idade avançada. Cercado pelos seus filhos e pelos seus netos que seguirão a sua magnífica aventura. Pairará então sobre a memória do homem lúcido uma aura de bondade.

Dir-se-á: – Aquele amou muito. Aquele fez muito bem às pessoas!

A Justa Lei Máxima da Natureza obriga que a quantidade de acontecimentos maus na vida de um homem se iguale sempre à quantidade de acontecimentos favoráveis. O homem lúcido porém, esse que optou pela vida com o consentimento dos deuses, tem o poder magno de alterar essa lei. Na sua vida, os acontecimentos favoráveis serão sempre maioria…Porque essa é uma cortesia que a Natureza faz com Os Homens Lúcidos.”

O texto é uma livre tradução, parte de um Tratado sobre a Lucidez, que teria sido escrito no séc. VI a.C, na Caldéia – parte sul e mais fértil da Mesopotâmia, entre os rios Eufrates e Tigre.

Sobre o filme

SEPARAÇÕES

Brasil, 2002

Direção: Domingos Oliveira

Roteiro: Domingos Oliveira e Priscilla Rozenbaum

Fotografia: Paulo Violeta

Direção de arte e figurino: Ronald Teixeira

Montagem: Natara Ney, José Rubens

Som Direto: Sílvio da Rin, Paulo Costa

Produção: Clélia Bessa, Luiz Leitão

Elenco: Domingos Oliveira, Priscilla Rozenbaum, Ricardo Kosovski, Fabio Junqueira, Maria Ribeiro, Nandda Rocha.

Duração:116 min.

Do amor… Uma prece para o (meu) bem amado

 

 

O amor – Khalil Gibran

Quando o amor vos chamar, segui-o,
Embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados;
E quando ele vos envolver com suas asas, cedei-lhe,
Embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir-vos;
E quando ele vos falar, acreditai nele,
Embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos
Como o vento devasta o jardim.
Pois, da mesma forma que o amor vos coroa,
Assim ele vos crucifica.
E da mesma forma que contribui para vosso crescimento,
Trabalha para vossa poda.
E da mesma forma que alcança vossa altura
E acaricia vossos ramos mais tenros que se embalam ao sol,
Assim também desce até vossas raízes
E as sacode no seu apego à terra.
Como feixes de trigo, ele vos aperta junto ao seu coração.
Ele vos debulha para expor vossa nudez.
Ele vos peneira para libertar-vos das palhas.
Ele vos mói até a extrema brancura.
Ele vos amassa até que vos torneis maleáveis.
Então, ele vos leva ao fogo sagrado e vos transforma
No pão místico do banquete divino.
Todas essas coisas, o amor operará em vós
Para que conheçais os segredos de vossos corações
E, com esse conhecimento,
Vos convertais no pão místico do banquete divino.
Todavia, se no vosso temor,
Procurardes somente a paz do amor e o gozo do amor,
Então seria melhor para vós que cobrísseis vossa nudez
E abandonásseis a eira do amor,
Para entrar num mundo sem estações,
Onde rireis, mas não todos os vossos risos,
E chorareis, mas não todas as vossas lágrimas.
O amor nada dá senão de si próprio
E nada recebe senão de si próprio.
O amor não possui, nem se deixa possuir.
Porque o amor basta-se a si mesmo.
Quando um de vós ama, que não diga:
“Deus está no meu coração”,
Mas que diga antes:
“Eu estou no coração de Deus”.
E não imagineis que possais dirigir o curso do amor,
Pois o amor, se vos achar dignos,
Determinará ele próprio o vosso curso.
O amor não tem outro desejo
Senão o de atingir a sua plenitude.
Se, contudo, amardes e precisardes ter desejos,
Sejam estes os vossos desejos:
De vos diluirdes no amor e serdes como um riacho
Que canta sua melodia para a noite;
De conhecerdes a dor de sentir ternura demasiada;
De ficardes feridos por vossa própria compreensão do amor
E de sangrardes de boa vontade e com alegria;
De acordardes na aurora com o coração alado
E agradecerdes por um novo dia de amor;
De descansardes ao meio-dia
E meditardes sobre o êxtase do amor;
De voltardes para casa à noite com gratidão;
E de adormecerdes com uma prece no coração para o bem-amado,
E nos lábios uma canção de bem-aventurança.

Do livro: O Profeta – Gibran Khalil Gibran

Tudo vem a tempo… Hilda Hilst

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Do amor contente e muito descontente – 10

Tenho pedido a todos que descansem
De tudo o que cansa e mortifica:
O amor, a fome, o átomo, o câncer.
Tudo vem a tempo no seu tempo.
Tenho pedido às crianças mais sossego
Menos risos e muita compreensão para o brinquedo.
O navio não é trem, o gato não é guizo.

Quero sentar-me e ler nesta noite calada.
A primeira vez que li Franz Kafka
Eu era uma menina. (A família chorava).
Quero sentar-me e ler mas o amigo me diz:
O mundo não comporta tanta gente infeliz.

Ah, como cansa querer ser marginal
Todos os dias.
Descansem anjos meus. Tudo vem a tempo
No seu tempo. Também é bom ser simples.
É bom ter nada. Dormir sem desejar
Não ser poeta. Ser mãe. Se não puder ser pai.

Tenho pedido a todos que descansem
De tudo o que cansa e mortifica.
Mas o homem

Não cansa.

 
– Hilda Hilst, no livro “Exercícios”. São Paulo: Editora Globo, 2001.

A apaixonante poesia de Matilde Campilho – Fevereiro

 

Escute só, isto é muito sério. Anda, escuta que isso é sério! O mundo está tremendamente esquisito. Há dez anos atrás o Leon me disse que existe uma rachadura em tudo e que é assim que a luz entra, não sei se entendi. Você percebe alguma coisa da mistura entre falhas e iluminação?  Aliás, me diga, você percebe alguma coisa de carpintaria? Você sabe por que meteram um boi naquele estábulo ao invés de um pequeno rinoceronte? Deve ter tido alguma coisa a ver com a geografia. Ou com os felizmente insolussionáveis mistérios que só podem vir do misticismo asiático. Um boi é um bicho tão… inexplicável. Ainda bem. O amor é um animal tão mutante, com tantas divisões possíveis. Lembra daqueles termômetros que usávamos na boca quando éramos pequenininhos? Lembra da queda deles no chão?  Então, acho que o amor quando aparece é em tudo semelhante à forma física do mercúrio no mundo. Quando o vidro do termômetro se quebra, o elemento químico se espalha e então ele fica se dividindo pelos salões de todas as festas. Mercúrio se multiplicando. Acho que deve ser isso uma das cinco mil explicações possíveis para o amor. Ah é! Eu gosto de você. A luz entrou torta por nós a dentro, mas, olha, eu gosto de você! A luz do verão passado quebrou o vidro da melancolia e agora ela fica se expandindo pelas ruas todas. Desde aquele outro lado do Sol até esse tremendo agora.  Hoje ainda faz bastante frio. As cinzas ainda não aterraram sobre as cabeças disfarçadas, tem gente batucando suor e cerveja pelas ruas de nossa cidade sul. Na cidade norte, há ondas de sete metros tentando acertar no terceiro olho dos rapazinhos disfarçados de cowboys. [suspiro] O mestre ainda não veio decretar o começo da abstenção e, olha, a luz ainda está conosco. Sim, o mundo está absurdamente esquisito. Já ninguém confia nas imposições dos prefeitos, a esta hora na terra é um tanto carnaval, um tanto conspiração, um tanto medo. Metade fé, metade folia, metade desespero. E, provavelmente, a esta hora, uma metade do mundo está vencendo e a outra metade dormindo, há ainda outra metade limpando as armas, outra limpando o pó das flores. Mas,  por causa do que me ensinou o místico, eu acredito que exista, agora, alguém profundamente acordado. Alguém que esteja vivendo entre o intervalo tênue entre o sonho e a agilidade. Suponho que ele saiba perfeitamente que este começo de século será nosso batismo do voô para nossa persistência no amor.João molhou a testa de Manuel. Os gritos das ruas molham as testas de nossos corações.  De que lado você está, eu não me importo! De que garfo você come, de que copo você bebe, que posto certo você escolhe, qual é seu orixá, seu partido, sua altura, de qual de suas cicatrizes cuida, que pássaro você prefere, quem é seu pai, qual é seu samba, Pinot noir ou Chardonay, que protetor você usa,  qual é sua pele, seu perfume, qual político, quantos amores você sonha, em que Fernando, em que Ofélia, em que cinema, em que bandeira, em que cabelo você mora, qual dos túneis de Copacabana. Rezo para seus santos quando atravessar. É… é impossível viver no país de Deus. Isso eu te dou de barato. Mas, atravessar o gramado de Deus em bicicleta, isso não é impossível, não. Escuta, isso é sério! Andamos crescendo juntos, distraidamente. As árvores crescem conosco. Nossa pele se estende, nosso entendimento, teso, também. O século cresce conosco. O amor pelas ventas da cara do mundo, também. Quanto a um pra um entre nós dois, isso logo se vê. Não sei nada sobre a paixão, suspeito que você também não. Mas, começo a entender que o compasso da fé está mudando a passos largos. Dois pra lá e dois pra cá. Portanto, escute. Isto é muito serio! Isto é uma proposta aos trinta anos. Agora que o mercúrio assumiu sua posição certa, vem comigo achar o meu trono mágico entre a folhagem. E, no caminho até lá, vem dançar comigo, vem!

 

Mais sobre Matilde Campilho :))

 

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O mundo explodindo e eu ainda aqui sonhando…

Uma das poesias mais lindas que ouvi nesses últimos tempos…

Por Leo Cavalcanti:

Compus essa música em meio a lágrimas. Ela simplesmente brotou de mim. Brotou da dor de contemplar ao mesmo tempo meu coração sagrando por um amor perdido e o mundo sangrando em crises que só se aprofundam. É sobre isso que trata “Ainda Aqui Sonhando”. Sobre essa equação que parece não fechar: precisamos salvar o mundo, precisamos salvar a nós mesmos. Ela é minha oferenda para esse nosso momento, e eu dedico a todxs que lutam por liberdade, justiça e amor. (via Instagram)

 

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O amor é o maior sonho de todo ser humano, mesmo diante de um mundo tão turbulento e cheio de tragédias… É isso!  |O amor é assim… Uma verdadeira obra prima: Uma poesia em forma de canção. Uma música cheia de passagens inusitadas; de melodias e delícias.  E a fotografia desse clipe?? Demais… Minha descoberta de hoje: Leo Cavalcanti 🙂 e logo abaixo a ficha completa de todos que construíram essa maravilha.

Voltando aqui hoje, dia 23 pra falar ainda dessa música que vem mexendo com minha cabeça…  O poeta não só sonha com um amor, ele sonha em ser um cantor, em ser feliz… E isso realmente me faz lembrar da empatia, de como, por muitas vezes, sabendo de tantas tragédias, de tantas vidas que sofrem todo tipo de carência, de um mundo tão egoísta… Um mundo que compartilha tanto sofrimento e até utiliza isso pra conseguir “likes” na rede social… E tantas mãos atadas, inertes… Como podemos querer ser feliz? porque temos esse direito?E como ser feliz quantos tantos seres humanos sofrem em meio a esse mundo tão grande?? A postagem de Arthur Schopenhauer – As dores do mundo que fiz aqui em 2012 … continuo com isso na minha cabeça… Enfim, ai de nós não fossem os poetas, os músicos pra falar de forma tão linda sobre a humanidade que há em nós…

 

AINDA AQUI SONHANDO
(Leo Cavalcanti)

O mundo explodindo e eu ainda aqui sonhando em ter um amor
o mundo explodindo e eu ainda aqui sonhando
sonhando solitário a minha dor
do fato dado de estar inundado por um sonho
Barragens se rompendo e eu ainda aqui querendo aquele amor
as lamas escorrendo e eu ardendo por um sonho
um certo cara e o seu calor
tão displicentemente ele entra nos meus sonhos
sonhos de amor
E ele já não me quer mais
por que ele entrou assim
no fundo de dentro de mim?
Tanta gente sem amor
e eu pedindo por favor
pra ele me salvar de mim
e o mundo em chamas por aí
e não será a última vez
Sete bilhões de solidões
fascismo a todo vapor
medo, ignorância e dor
e eu sem saber mais de mim
por que me sinto só assim?
ele já tem um novo amor
por que isso dói tanto aqui?
eu achei que era amor
Fascismo se espalhando e eu ainda insistindo em ser um cantor
pessoas sendo mortas e eu ainda aqui com medo
de ser alguém aquém de quem eu sou
de não dar conta de cantar o canto dos meus sonhos
cantos de amor
Como se não coubesse em mim
o canto que se pede aqui
num mundo em pleno desamor
medo, ignorância e dor
e eu pedindo por favor
pra ele me salvar de mim
e o mundo em chamas por aí
fascismo a todo vapor
Ele já tem um novo amor
por que ele entrou assim
no fundo de dentro de mim?
Sete bilhões de solidões
Tanta gente sem amor
E não será a última vez
Por que me sinto só assim?
Eu achei que era amor
Eu achei que era amor
Eu achei…
O mundo explodindo e eu ainda aqui
sonhando…

“Videoclipe oficial de “Ainda Aqui Sonhando”, single de Leo Cavalcanti lançado em Março de 2018. Direção: Ricardo China e Rafael Souza – Usina Films Criação: Ricardo China Diretor de fotografia e grading: Edvaldo Júnior Montagem: Rafael Souza ASsistente de edição: Yasmin Reis Produção: Bruna Leskowicz Estrelando: Leo Cavalcanti Hiran Amine Barbuda Arthur Scovino Johanna Gaschler Dimmy Oliveira Raquel Padua Ficha técnica – single: “Ainda Aqui Sonhando” autoria: Leo Cavalcanti Produzido por Gustavo Ruiz e Guilheme Held Arranjos de cordas por Jacques Mathias Leo Cavalcanti: Voz, violão Rafael Rocha: Percussões e MPC Guilherme Held: Guitarra e baixo Violino: Aramis Rocha Violino 2: Robson Rocha Cello: Deni Rocha Viola: Daniel Pires Mixado e masterizado por Carlos “Cacá” Lima no Estúdio YB” (via canal YouTube Leo Cavalcanti )

 

uma poesia…

By Kika Domingues

By Kika Domingues – Taciana e Ygor

E eu amo as mulheres de olhos bonitos,

 As com pés pequenos e cintura larga;

Eu as amo muito; as amo como elas são

As suas mãos suam, as suas respirações param

Amo as mulheres que são inocentemente tristes

As que são como gazelas inocentes, tímidas

Eu as amo muito, eu as amo como elas são

Não pode imaginar como elas são lindas quando beijam

Eu amo as mulheres inteligentes, as que pensam,

As que falam menos, as que sabem tudo

As que em qualquer lugar, qualquer hora

podem ser perdoadas por seus caprichos

Eu as amo muito, eu as amo como elas são

E aquela que há de provocar os infinitos incêndios dentro de mim

Mesmo que venha a me causar a própria morte.

 

Essa poesia foi recitada por um dos protagonistas de uma novela turca que estou acompanhando (Amor Proibido). A transcrevi para guardar. Não tenho nenhuma referência da autoria; se pertence ao autor da novela , ou se é obra de algum poeta turco. Não achei menção nenhum no google sobre ela. Bela poesia 🙂

Concretude…

by kika domingues

By Kika Domingues

 

Tem esse aperto no peito e uma quase-angústia. Das coisas sem nome, que eu podia chamar de. Mas é melhor não. Porque quando a gente enfeita o sentimento com letras, ele ganha uma concretude que é pra nunca mais. E eu tenho medo do que é pra nunca mais.

 

Brisa

Paraíso se mudou para lá…

Laura

By Kika Domingues – 2018

 

 Presta atenção a essa letra que nos leva as várias “leituras” :))

 

 

VILAREJO

Marisa Monte/Pedro Baby/Carlinhos Brown/Arnaldo Antunes

 

Há um vilarejo ali

Onde areja um vento bom

Da varanda quem descansa

Vê o horizonte deitar no chão

Pra acalmar o coração

Lá o mundo tem razão

Terra de heróis, lares de mãe

Paraíso se mudou para lá

Por cima das casas cal

Frutas em qualquer quintal

Peitos fartos, filhos fortes

Sonhos semeando o mundo real

Toda a gente cabe lá

Palestina Shangri-lá

Vem andar e voa

Vem andar e voa

Vem andar e voa

Lá o tempo espera

Lá é primavera

Portas e janelas ficam sempre abertas

Pra sorte entrar

Em todas as mesas pão

Flores enfeitando

Os caminhos, os vestidos, os destinos

E esta canção

Tem um verdadeiro amor

Para quando você for

Vem andar e voa

Vem andar e voa

Vem andar e voa

Vem andar e voa

 

 

Ouça interpretações especialíssimas

 

 

 

 

desaprendizado…

OLYMPUS DIGITAL CAMERA

“Estou em desαprendizαdo, procurαndo αnαlfαbetizαr os sentidos, me desprover de definições e conceitos, αbstrαir e desconcluir, desplαnificαr, deliqüescer, evαporαr, eterizαr, αspergir, pulverizαr, ter αsα, vôo, pólen, vento, pαpel de sedα, poeirα, deixαr de ter pegαdαs, mαrcαs, impressão e αssim, quαse por descuido, sαir voαndo por αí.”

Patrícia Antoniete

O esquecimento é a arma mais letal do amor…

 

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By Kika Domingues

” (…) O esquecimento é a arma mais letal do amor, quem nos esquece é como se esquecesse de tudo o que fomos. Ou pior: que existimos. Quem ama e consegue esquecer é uma espécie de assassino: mata a realidade, apaga-a, revoga-a, transforma-a num pesadelo absurdo no qual somos obrigados a aprender outra vez a viver (…)” (Margarida Rebelo Pinto – Alma de pássaro)