Sentimento Religioso – Rubem Alves (sobre a música)

When_the_Stars_go_Blue_by_byCavalera

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O caos e a beleza

Quando eu era seminarista gostava de dormir ouvindo música. Eu tinha um radinho de válvulas e a música vinha sempre misturada com os ruídos da estática. Eu preferia a música às rezas. Se eu fosse Deus, eu também preferiria.

Na verdade eu já não rezava mais por duas razões. Primeiro, as aulas de teologia, pela mediocridade, me fizeram pensar – e o pensamento é um perigoso adversário das ideias religiosas. Eu nem sabia se ainda acreditava em Deus. Segundo, se Deus existia, valia o dito pelo salmista e por Jesus de que, antes que eu falasse qualquer coisa, Deus já sabia o que eu iria falar; o que tornava desnecessária a minha fala. Eu estava mais interessado em ouvir a divina beleza da música que em repetir as minhas mesmices que deveriam dar um tédio infinito ao Criador.
Se Deus existe, a beleza é o seu jeito de se comunicar com os mortais. Disso sabem os poetas, como é o caso da Helena Kolody, que escreveu: “Rezam meus olhos quando contemplo a beleza. A beleza é a sombra de Deus no mundo”. Ela poderia ter sido uma amiga da solitária Emily Dickinson, que sentia igual. “Alguns guardam o domingo indo à igreja / Eu o guardo ficando em casa / Tendo um sabiá como cantor / E um pomar por santuário / E, ao invés do repicar dos sinos na igreja / Nosso pássaro canta na palmeira / É Deus que está pregando, pregador admirável / E o seu sermão é sempre curto. Assim, ao invés de chegar ao céu, só no final eu o encontro o tempo todo no quintal.” Às vezes, Deus se revela como pássaro…
Deitei-me e liguei o radinho. Era uma noite de mau tempo, tempestade. O ar estava carregado de eletricidade – que entrava no rádio sob a forma de ruídos, estática, assobios. Era um caos sem sentido. Mas não perdi a esperança e continuei a procurar. De repente – a estática dominava a audição – ouvi lá no fundo uma música que muito amo: o concerto para piano e orquestra n.º 1, de Chopin. Fiquei ali lutando contra a estática: 90% de ruído caótico, 10% de beleza.
Eu não entendo esse mistério: todos os sons, estática e música chegavam juntos, misturados. Mas a minha alma, sem que tivesse sido ensinada, sabia distinguir muito bem o ruído caótico e sem sentido dos sons da beleza, que me comoviam. Minha alma sabia que a ordem morava no meio do caos e ela estava disposta a suportar o horrendo do caos pela beleza quase inaudível que existia no meio dele.
Aí me veio uma ideia sob a forma de uma pergunta que me pareceu uma revelação: a vida toda não será assim, uma luta contra o caos sem sentido em busca de uma beleza escondida? E essa busca da beleza, não será ela a essência daquilo a que se poderia dar o nome de “sentimento religioso?”
“Sentimento religioso”, como eu o entendo, nada tem a ver com ideias sobre o outro mundo. E algo parecido com a experiência que se tem ao ouvir a “valsinha” do Chico, ou a primeira balada de Chopin.
Uma sonata de Mozart… Um crítico musical poderia escrever um livro inteiro analisando e descrevendo a sonata. Mas, ao final da leitura do livro, o leitor continuaria sem nada saber sobre a sua beleza. A beleza está além das palavras, exceto quando as palavras se transformam em música, como na poesia.
Ficou aquela imagem. Uma melodia linda se faz ouvir em meio aos horrores da vida. Ainda que seja uma “marcha fúnebre”…
Rubem Alves

Tempo…

Resposta ao Tempo

Aldir Blanc e Cristovão Bastos

Batidas na porta da frente é o tempo
Eu bebo um pouquinho pra ter argumento
Mas fico sem jeito, calado ele ri
Ele zomba de quanto eu chorei
porque sabe passar e eu não sei
Num dia azul de verão sinto vento
há folhas no meu coração é o tempo
recordo um amor que eu perdi ele ri
Diz que somos iguais se eu notei
pois não sabe ficar e eu também não sei
E gira em volta de mim
sussurra que apaga os caminhos
que amores terminam no escuro sozinhos
Respondo que ele aprisiona, eu liberto
Que ele adormece as paixões e eu desperto
E o tempo se vai com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor pra tentar reviver
No fundo é uma eterna criança
que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder me esquecer me esquecer.

CONSUELO DE PAULA , uma mineira cheia de poesia…

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Para guardar e não mais esquecer dessa compositora mineira (poetisa), música maravilhosa, Consuelo de Paula. Mais uma preciosidade para o meu “livro de recortes”… “Garimpando” você vai encontrar coisas belíssimas.

A canção em destaque neste post  faz parte do projeto musical que trás o título “Dança das Rosas”:

“A canção sugestiva “Dança Para Um Poema” inaugura Dança das Rosas como uma nascente de um rio longo: “… passam rios no meu corpo, na minha voz, navios e embarcação”. A composição é uma conversa com os três movimentos do Poema Para Dança de Maria Del Carmen.” Leia mais http://www.consuelodepaula.com.br/dancadasrosas/release.htm

A Consuelo por ela mesma!

Acompanhe os links abaixo, vale a pena!

Dança Para Um Poema
Consuelo de Paula

Dou-te a minha pele, a minha mão
Hoje sou a terra da criação
Passam rios
No meu corpo
Na minha voz
Navios
E embarcação

Hoje sou a terra onde nasceu
Onde minha tribo nunca morreu
Meus pés irão
Desenhar
O coração
A montanha
E a nação

Mostro minha dança
Vento, canção
Lírios e madeiras
Vinhos e pão
Mostro a ti
Com a minha mão
O amor, o sal
Pedra e paixão

Eu sou o jardim
O solo, o quintal
A dança do milho
A espiga afinal
Um corpo teu
Nele pisas
Inda não vês
Te alimentas
Inda não crês

Sou um continente
Desconhecido
Um salão de dança
A imensidão
A minha pele
A minha mão
Eu vou te dar
Te convidar
Para dançar

Luiza Dvorek interpreta Dança para um poema

Consuelo Interpreta Convite. Vale a pena!

Consuelo Interpreta “Retinas”

Playlist You Tube Consuelo de Paula

Letras e Músicas de Consuelo de Paula

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