“Quanto espaço há na memória pra você não me esquecer?”

Quanto tempo leva na tua história pra uma história acontecer? Quanto espaço há na memória pra você não me esquecer? Como toda chuva molha meu beijo vai te aquecer Se da ponta dos teus dedos outra flor aparecer Quantas cores tem teu paraíso se tua foto é em pb? E se o filme é colorido como não vou me perder Num sorriso tão bonito como o que acabo de ver? Se você sorrir de novo não consigo mais correr Fecho os olhos pra não ver Vejo e faço outra canção E nessa canção há flores Como as flores de outrora Do meu coração saem flores Que eu vou te entregar agora E nas suas mãos mais flores Desenhe um jardim sem demora Que eu vou levar amores pra você plantar E com beijos vou te pintar da azul Quanto tempo leva na tua história pra uma história acontecer? Quanto espaço há na memória pra você não me esquecer? Como toda chuva molha meu beijo vai te aquecer Se na ponta dos teus dedos outra flor aparecer Não consigo mais correr Fecho os olhos pra não ver Vejo e faço outra canção.

 

Leo Fressato é compositor desde os 14 anos. Começou a escrever sobre amor ainda mais cedo, aos 10 anos de idade, quando, pela perimeira vez, se apaixonou. E, até hoje, assim são as canções de Leo Fressato: um tratado sobre o amor. Entre folhas de outono e invernos rigorosos brotam flores nas canções do rapaz. É preciso que o inverno passe (e que passe depressa). E, para que isso aconteça, Leo brinca. Oras de ser veludo, para tecer delicadeza; oras de ser espinho e sangrar a canção com os gritos de dor dos amores mal fadados. Leo Fressato é feito de flores e de veias saltadas no pescoço. http://www.leofressato.com.br/

árvore…

 

no caminho da bouganville - by Kika Domingues - junho 2018

no caminho da bouganville – by Kika Domingues – junho 2018

 

…deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você cresceu em mim de um jeito completamente insuspeitado, assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse você esperando ver uma plantinha qualquer, pequena, rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é, não estou sendo agressivo(a) não, esperava de você apenas coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca, em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado…

 

Caio Fernando Abreu

Do amor… Uma prece para o (meu) bem amado

 

 

O amor – Khalil Gibran

Quando o amor vos chamar, segui-o,
Embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados;
E quando ele vos envolver com suas asas, cedei-lhe,
Embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir-vos;
E quando ele vos falar, acreditai nele,
Embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos
Como o vento devasta o jardim.
Pois, da mesma forma que o amor vos coroa,
Assim ele vos crucifica.
E da mesma forma que contribui para vosso crescimento,
Trabalha para vossa poda.
E da mesma forma que alcança vossa altura
E acaricia vossos ramos mais tenros que se embalam ao sol,
Assim também desce até vossas raízes
E as sacode no seu apego à terra.
Como feixes de trigo, ele vos aperta junto ao seu coração.
Ele vos debulha para expor vossa nudez.
Ele vos peneira para libertar-vos das palhas.
Ele vos mói até a extrema brancura.
Ele vos amassa até que vos torneis maleáveis.
Então, ele vos leva ao fogo sagrado e vos transforma
No pão místico do banquete divino.
Todas essas coisas, o amor operará em vós
Para que conheçais os segredos de vossos corações
E, com esse conhecimento,
Vos convertais no pão místico do banquete divino.
Todavia, se no vosso temor,
Procurardes somente a paz do amor e o gozo do amor,
Então seria melhor para vós que cobrísseis vossa nudez
E abandonásseis a eira do amor,
Para entrar num mundo sem estações,
Onde rireis, mas não todos os vossos risos,
E chorareis, mas não todas as vossas lágrimas.
O amor nada dá senão de si próprio
E nada recebe senão de si próprio.
O amor não possui, nem se deixa possuir.
Porque o amor basta-se a si mesmo.
Quando um de vós ama, que não diga:
“Deus está no meu coração”,
Mas que diga antes:
“Eu estou no coração de Deus”.
E não imagineis que possais dirigir o curso do amor,
Pois o amor, se vos achar dignos,
Determinará ele próprio o vosso curso.
O amor não tem outro desejo
Senão o de atingir a sua plenitude.
Se, contudo, amardes e precisardes ter desejos,
Sejam estes os vossos desejos:
De vos diluirdes no amor e serdes como um riacho
Que canta sua melodia para a noite;
De conhecerdes a dor de sentir ternura demasiada;
De ficardes feridos por vossa própria compreensão do amor
E de sangrardes de boa vontade e com alegria;
De acordardes na aurora com o coração alado
E agradecerdes por um novo dia de amor;
De descansardes ao meio-dia
E meditardes sobre o êxtase do amor;
De voltardes para casa à noite com gratidão;
E de adormecerdes com uma prece no coração para o bem-amado,
E nos lábios uma canção de bem-aventurança.

Do livro: O Profeta – Gibran Khalil Gibran

mais poesia… e Fátima Guedes

 

A interpretação mais linda que achei para essa obra… Fátima Guedes. Amei o arranjo.

Do álbum Pra Bom Entendedor – 1994 Gravadora Galeão

 

A Rota Do Indivíduo (Ferrugem) (Djavan, Orlando Moraes) 

Mera luz que invade a tarde cinzenta

E algumas folhas deitam sobre a estrada

O frio é o agasalho que esquenta

O coração gelado quando venta

Movendo a água abandonada

Restos de sonhos sobre um novo dia

Amores nos vagões, vagões nos trilhos

Parece que quem parte é a ferrovia

Que mesmo não te vendo te vigia

Como mãe, como mãe que dorme olhando os filhos

Com os olhos na estrada

E no mistério solitário da penugem

Vê-se a vida correndo, parada

Como se não existisse chegada na tarde distante, ferrugem ou nada.

A Rota Do Indivíduo (Ferrugem)  – Djavan, Orlando Moraes

 

 

Tudo vem a tempo… Hilda Hilst

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Do amor contente e muito descontente – 10

Tenho pedido a todos que descansem
De tudo o que cansa e mortifica:
O amor, a fome, o átomo, o câncer.
Tudo vem a tempo no seu tempo.
Tenho pedido às crianças mais sossego
Menos risos e muita compreensão para o brinquedo.
O navio não é trem, o gato não é guizo.

Quero sentar-me e ler nesta noite calada.
A primeira vez que li Franz Kafka
Eu era uma menina. (A família chorava).
Quero sentar-me e ler mas o amigo me diz:
O mundo não comporta tanta gente infeliz.

Ah, como cansa querer ser marginal
Todos os dias.
Descansem anjos meus. Tudo vem a tempo
No seu tempo. Também é bom ser simples.
É bom ter nada. Dormir sem desejar
Não ser poeta. Ser mãe. Se não puder ser pai.

Tenho pedido a todos que descansem
De tudo o que cansa e mortifica.
Mas o homem

Não cansa.

 
– Hilda Hilst, no livro “Exercícios”. São Paulo: Editora Globo, 2001.