CONDENADA A SER LIVRE…

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Realmente, só pelo fato de ser consciente

das causas que inspiram minhas ações,

estas causas já são objetos transcendentes para minha consciência;

elas estão fora. Em vão tentaria apreendê-las.

Escapo delas pela minha própria existência.

Estou condenado a existir para sempre além da minha essência,

além das causas e motivos dos meus atos.

Estou condenado a ser livre. Isso quer dizer que nenhum limite

para minha liberdade pode ser estabelecido

exceto a própria liberdade, ou, se você preferir;

que nós não somos livres para deixar de ser livres.

[Jean-Paul Sartre, in O Ser e o Nada (1943), Quarta Parte]

SEJAMOS…

Eu sou de Leão - By Kika Domingues

Eu sou de Leão – By Kika Domingues

SEJAMOS MESTRES DOS NOSSOS DESTINOS

E COMANDANTES DA NOSSA ALMA

Invictus

Do breu da noite que não se dissolve
A me envolver em nuvem negra,
A qualquer Deus – se algum me ouve,
Agradeço por minha alma que não se verga.

Fustigado pelas garras do acaso,
Nunca lamentei, não esmoreceu minha fé.
Sob os golpes fortuitos do descaso,
Trago a cabeça em sangue, mas ainda de pé.

Além deste lugar de ira e ranger de dentes
Só se vê o Horror de sombras silentes;
Mas a ameaça do Tempo, que nunca recua,
Não me amedronta, nem me acua.

Embora estreito o portão, sigo adiante,
Mesmo tendo ao lado o castigo e o desatino,
Da minha alma eu sou o comandante;
Eu sou o senhor do meu destino.

William Ernest Henley

Tradução: Renato Marques de Oliveira

DA NECESSIDADE DE AUMENTAR O MUNDO – Fernando Pessoa

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Tive sempre, desde criança, a necessidade de aumentar o mundo…

[Rascunho de uma carta a Adolfo Casais Monteiro -1935]

Tive sempre, desde criança, a necessidade de aumentar o mundo com personalidades fictícias, sonhos meus rigorosamente construídos, visionados com clareza fotográfica, compreendidos por dentro das suas almas. Não tinha eu mais que cinco anos, e, criança isolada e não desejando senão assim estar, já me acompanhavam algumas figuras de meu sonho — um capitão Thibeaut, um Chevalier de Pas — e outros que já me esqueceram, e cujo esquecimento, como a imperfeita lembrança daqueles, é uma das grandes saudades da minha vida.

Isto parece simplesmente aquela imaginação infantil que se entretém com a atribuição de vida a bonecos ou bonecas. Era porém mais: eu não precisava de bonecas para conceber intensamente essas figuras. Claras e visíveis no meu sonho constante, realidades exactamente humanas para mim, qualquer boneco, por irreal, as estragaria. Eram gente.

Além disto, esta tendência não passou com a infância, desenvolveu-se na adolescência, radicou-se com o crescimento dela, tornou-se finalmente a forma natural do meu espírito. Hoje já não tenho personalidade: quanto em mim haja de humano, eu o dividi entre os autores vários de cuja obra tenho sido o executor. Sou hoje o ponto de reunião de uma pequena humanidade só minha.

Trata-se, contudo, simplesmente do temperamento dramático elevado ao máximo; escrevendo, em vez de dramas em actos e acção, dramas em almas. Tão simples é, na sua substância, este fenómeno aparentemente tão confuso.

Não nego, porém — favoreço, até — a explicação psiquiátrica, mas deve compreender-se que toda a actividade superior do espírito, porque é anormal, é igualmente susceptível de interpretação psiquiátrica. Não me custa admitir que eu seja louco, mas exijo que se compreenda que não sou louco diferentemente de Shakespeare, qualquer que seja o valor relativo dos produtos do lado são da nossa loucura.

«Médium», assim, de mim mesmo, todavia subsisto.

Sou, porém, menos real que os outros, menos coeso [?], menos pessoal, eminentemente influenciável por eles todos. Sou também discípulo de Caeiro, e ainda me lembro do dia — 13 de Março de 1914 — quando, tendo «ouvido pela primeira vez» (isto é, tendo acabado de escrever, de um só hausto do espírito) grande número dos primeiros poemas do Guardador de Rebanhos, imediatamente escrevi, a fio, os seis poemas-intersecções que compõem a Chuva Oblíqua («Orpheu» 2), manifesto e lógico resultado da influência de Caeiro sobre o temperamento de Fernando Pessoa.

Fonte:

http://arquivopessoa.net/textos/4264