TENHA O CUIDADO DE OLHAR…

Fotografia de Grafismo exposto na Prefeitura da CIdade do Recife - Kika Domingues - Dispositivos Móveis
Fotografia de Grafismo exposto na Prefeitura da CIdade do Recife – Kika Domingues – Dispositivos Móveis

“Quando a felicidade chegar tenha o cuidado de olhar em sua bagagem

para certificar-se de que ela já não pesa demais e que ainda há espaço para o novo.

Espero que não tenhas permitido que as rodinhas dela tenham quebrado e o zíper emperrado.

Há que se fazer lugar para ela porque ela é matreira e fugidia.

Não tente carregá-la consigo porque ela não é coisa, não é o destino, é somente mais um caminho.

As vozes ao teu redor tentarão te atrair para os pequenos hojes e as pequenas raivas mundanas.

E precisarás dessas coisas também, para respirar um pouco.

A verdade sufoca, às vezes, quando em excesso.

Mas essas pequenas tristezas e os grandes dramas que nos contam são também nossos

e o cansaço é permitido desde que seja louvado ( e não propagandeado).

Eu não tenho medo da minha bagagem e nem do meu cansaço.

Eu tenho medo é dessa anestesia que me rodeia.

Eu tenho medo é dessas palavras sem boca que voam por aí virando vocabulário do mundo.

Eu acredito que preciso descansar um pouco da minha alma inquieta, mas talvez não.

Talvez eu tenha passado a vida toda descansando e agora o que eu preciso é da exaustão.

Do irracional e do ilógico, porque eu não suporto mais esse apaziguamento retido.

Eu não suporto mais falsos moralismos, lições prontas,

frases feitas,roupas que não me cabem e auto-enganação”

Clarice por Claudia Andujar – A história de um retrato

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“Fui à casa de Clarice Lispector para fotografá-la a pedido da revista Claudia,

que naquele ano de 1961 preparava uma reportagem sobre a escritora.

Pouco me lembro daquele dia perdido no tempo, mas há detalhes que guardo para sempre.

Ninguém da revista me acompanhava e fui recebida com muita simpatia por aquela mulher linda,

vestida com simplicidade e elegância. Conversamos pouco.

Quis deixá-la à vontade para a foto, e perguntei como gostaria de se posicionar.

Se não me engano, a ideia de sentar diante da máquina de escrever e começar a trabalhar em algum texto foi de Clarice.

E então ela se deixou absorver pelo ato de escrever, completamente entregue, sem quase notar minha presença”. 

(Fonte: Cosac Naify)

Depoimento da fotógrafa  Claudia Andujar, autora  de um retrato de Clarice encomendado pela Revista Claudia

Esta mesma fotografia foi a capa da biografia “Clarice”, de Benjamin Moser,  Editora Cosac Naify, lançado em 2009.

DIFÍCIL DE COMPREENDER… (Fabrício Carpinejar)

Foto Kika Domingues
Foto Kika Domingues

Eu amo desorganizado, desenvergonhado. Tenho um amor que não é fácil de compreender porque é confuso. Não controlo, não planejo, não guardo para o mês seguinte. A confusão é quase uma solidão adicional.Uma solidão emprestada. Sou daqueles que pedirá desculpa por algo que o outro nem chegou a entender,que mandará nova carta para redimir uma mágoa inventada, que estará se cobrando antes de dizer. Basta alguém me odiar que me solidarizo ao ódio. Quisera resistir mais. Mas eu faço comigo a minha pior vingança. Amar demais é o mesmo que não amar. A sobra é o mesmo que a falta. Desejava encontrar no mundo um amor igual ao meu. Se não suporto o meu próprio amor, como exigir isso? Um dia li uma frase em Hegel: “nada de grande se faz sem paixão”. Mas nada de pequeno se faz sem amor. A paixão testa, o amor prova.  A paixão acelera, o amor retarda.  A paixão repete o corpo, o amor cria o corpo. A paixão incrimina, o amor perdoa. A paixão convence, o amor dissuade. A paixão é desejo da vaidade, o amor é a vaidade do desejo. A paixão não pensa, o amor pesa. A paixão vasculha o que o amor descobre. A paixão não aceita testemunhas, o amor é testemunha. A paixão facilita o encontro, o amor dificulta. A paixão não se prepara, o amor demora para falar. A paixão começa rápido, o amor não termina. Não me dou paz sequer um segundo. Medo imenso de perder as amizades, de apertar demais as palavras e estragar o suco, de ser violento com a respiração e virar asma.  Até a minha insegurança é amor. O pente nos meus cabelos é faca enquanto é garfo para os demais. Sofro incompetência natural para medir a linguagem das laranjas,acredito desde pequeno que tudo o que cabe na mão me pertence. Minha lareira não dura uma noite, esqueço da reposição das achas,do envolvimento da lenha no jornal, de assoprar o fundo. Brigo com o bom senso. Ou sinto calor demais ou sinto frio demais. Uma ânsia de ser feliz maior do que a coordenação dos braços. Um arroubo de abraçar e de se repartir, de se fazer conhecer, que assusta. Parece agressivo, mas é exagerado. Conto tragédias de forma engraçada, falo de coisas engraçadas como uma tragédia. Nunca o riso ou o choro acontece quando quero. Cumprimento como se fosse uma despedida. Desço a escada de casa ao trabalho com resignação, mas subo na volta pulando os degraus. 

Esse sou eu: que vai pela esperança da volta.

(Fabrício Carpinejar)

Minha vida eu vou levando a céu e mar…

Praia do Jacaré - João Pessoa - PB - Foto: Kika Domingues

Céu e Mar

Johnny Alf & Antonio Carlos Jobim 

Céu e mar, estrelas na areia
Verde mar, espelho do céu
Minha vida é uma ilha bem distante
Flutuando no oceano na aventura de viver

Céu e mar, estrelas na areia
Verde mar, espelho do céu
Meus desejos são estrelas pequeninhas
Rebrilhando de alegria por alguém que me quer bem

Geralmente o que a gente quer na vida
É preciso esperar pra acontecer
Felizmente a gente encontra alegria
No carinho e devoção de um bem querer

Céu e mar, estrelas na areia
Verde mar, espelho do céu
Minha vida, vou passando
Meu amor, eu vou amando
E meu barco vou levando a céu e mar

Para ouvir clique:

 

DESEJO.. PROMESSA…

Caminhos - Foto: Kika Domingues
Caminhos – Foto: Kika Domingues

Nego-me a submeter-me ao medo,
Que me tira a alegria de minha liberdade,
Que não me deixa arriscar nada,
Que me torna pequeno e mesquinho,
Que me amarra,
Que não me deixa ser direto e franco,
Que me persegue,
Que ocupa negativamente a minha imaginação,
Que sempre pinta visões sombrias.
No entanto não quero levantar barricadas por medo do medo,
Eu quero viver, não quero encerrar-me.
Não quero ser amigável por medo de ser sincero.
Quero pisar firme porque estou seguro,
E não para encobrir o medo.
E quando me calo, quero fazê-lo por amor,
E não por temer as consequências de minhas palavras.
Não quero acreditar em algo só por medo de não acreditar.
Não quero filosofar por medo de que algo possa atingir-me de perto.
Não quero dobrar-me só porque tenho medo de não ser amável.
Não quero impor algo aos outros pelo medo de que possam impor algo a mim.
Por medo de errar não quero me tornar inativo.
Não quero fugir de volta para o velho, o inaceitável, por medo de não me sentir seguro no novo.
Não quero fazer-me de importante porque tenho medo de ser ignorado.
Por convicção e amor quero fazer o que faço e deixar de fazer o que deixo de fazer.
Do medo quero arrancar o domínio de dá-lo ao amor.
E quero crer no reino que existe em mim.

Rudolf Steiner