Deus… Eu pensei que fosse…

Buscando a Lua - Foto Kika Domingues
Buscando a Lua – Foto Kika Domingues

Sim, foi que nem um temporal
Foi um vaso de cristal
Que partiu dentro de mim
Ou quem sabe os ventos
Pondo fogo numa embarcação
Os quatro elementos
Num momento de paixão
Deus, eu pensei que fosse Deus
E que os mares fossem meus
Como pensam os ingleses
Mel, eu pensei que fosse mel
E bebi da vida como bebe
Um marinheiro de partida, mel
Meu, eu julguei que fosse meu
O calor do corpo teu
Que incendeia meu corpo há meses
Ar, como eu precisava amar
E antes mesmo do galo cantar
Eu te neguei três vezes
Cais, ficou tão pequeno o cais
Te perdi de vista para nunca mais
Mais, mais que a vida em minha mão
Mais que jura de cristão
Mais que a pedra desse cais
Eu te dei certeza
Da certeza do meu coração
Mas a natureza vira a mesa da razão

(Embarcação – Chico Buarque e Francis Hime)

Na voz de Olívia Hime:

Para ouvir a versão original cantada por Francis Hime:

http://www.radio.uol.com.br/#/letras-e-musicas/francis-hime/embarcacao/1238971

CASAMENTO… SEGUNDO O OLHAR MASCULINO…

   “UMA MALHA DE NÓS AMOROSOS…”

 

para enfeitar o amor - Foto: Kika Domingues
para enfeitar o amor – Foto: Kika Domingues

Uma das definições mais lindas que li…

Acho que posso dizer o que minha avó me disse quando me casei: quem pensa não casa, quem casa não pensa. É isso: o casamento não é uma decisão racional. O casamento é uma decisão de amor. Não falo do amor-tesão que é necessário e vital. Nem falo do amor-afeição que é necessário e vital. Falo da atração amorosa, da lei mais forte do universo, que nos une acima do tesão, da razão e da emoção. Falo de uma força, de uma atração, que quando a obedecemos temos a sensação de que o universo nos agradece e evolui. Parece que cumprimos um combinado que podíamos não cumprir. Daí a gratidão. É como se usássemos nossa liberdade para concordar com a lei e não para discordar.

Liberdade para concordar!

Nesta hora, em que concordamos com a lei do amor, nós relaxamos, nós nos aquietamos, nós nos unimos, nós nos casamos. Parece que ao nos casarmos nós estamos unindo pontas, tecendo uma malha de energia, uma malha de nós amorosos que suportam a evolução de nós mesmos e de nossas relações. Talvez por isso, quando alguém se casa, todos nós nos sentimos menos sozinhos. E festejamos. É mais um lugar para se chegar e encontrar o amor tecendo a tal da malha que nos suporta.

Que todos nós sejamos generosos e compreensivos com as nossas imperfeições. Que tenhamos certeza de que, em sã consciência, todos concordaríamos com o Plano do Pai, um plano de puro amor onde as pessoas não se casam porque pensam mas porque se amam.

Enfim, queridos amigos, que vocês sejam felizes e que essa seja a Sua Vontade .

(Por Ricardo Guimarães casado com Marília de Lima)

DESEJO PAZ PRA VOCÊ… PROFUNDA PAZ…

E ONTEM FOI O DIA DE AÇÃO DE GRAÇAS…

SÓ HOJE FUI PERCEBER…

Onda de Paz profunda  correndo para você

Ar de Paz profunda  fluindo para você

Paz profunda das estrelas brilhando para você

Paz profunda da noite suave para você

Lua e as estrelas derramam sua luz de cura em você

Profunda Paz de Cristo a luz do mundo para você

Profunda paz de Cristo para você…

MEU CORAÇÃO ME LEVA…

Foto Kika Domingues - Pôr do Sol Praia do Jacaré
Foto Kika Domingues – Pôr do Sol Praia do Jacaré

quantos labirintos, tem meu coração
pra eu me perder, e te encontrar
quantas avenidas, tem o seu olhar
pra te seguir, e me guiar
meu coração me leva
perto demais do seu
meu coração nem sabe por que
o meu amor é bem maior que eu
quem sabe o destino, ainda vai juntar
o céu e o mar, eu e você
quem de nós um dia, iria imaginar
que o amor pudesse acontecer
seu coração é livre
tanto que prende o meu
seu coração nem sabe por que
o meu amor é tão igual ao seu

Entre o Céu e o Mar

Elba Ramalho

… nasceu cativo, e só no cativeiro pode viver…

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Talvez o último desejo – Raquel de Queiroz

 Pergunta-me com muita seriedade uma moça jornalista qual é o meu maior desejo para o ano de 1950. E a resposta natural é dizer-lhe que desejo muita paz, prosperidade pública e particular para todos, saúde e dinheiro aqui em casa. Que mais há para dizer?

 Mas a verdade, a verdade verdadeira que eu falar não posso, aquilo que representa o real desejo do meu coração, seria abrir os braços para o mundo, olhar para ele bem de frente e lhe dizer na cara: Te dana!

 Sim te dana, mundo velho. Ao planeta com todos os seus homens e bichos, ao continente, ao país, ao Estado, à cidade, à população, aos parentes, amigos e conhecidos: danem-se! Danem-se que eu não ligo, vou pra longe me esquecer de tudo, vou a Pasárgada ou a qualquer outro lugar, vou-me embora, mudo de nome e paradeiro, quero ver quem é que me acha.

 Isso que eu queria. Chegar junto do homem que eu amo e dizer para ele: Te dana, meu bem! Dora em vante pode fazer o que entender, pode ir, pode voltar, pode pagar dançarinas, pode fazer serenatas, rolar de borco pelas calçadas, pode jogar futebol, entrar na linha de Quimbanda, pode amar e desamar, pode tudo, que eu não ligo!

 Chegar junto ao respeitável público e comunicar-lhe: Danai-vos, respeitável público. Acabou-se a adulação, não me importo mais com as vossas reações, do que gostais e do que não gostais; nutro a maior indiferença pelos vossos apupos e os vossos aplausos e sou incapaz de estirar um dedo para acariciar os vossos sentimentos. Ide baixar noutro centro, respeitável público, e não amoleis o escriba que de vós se libertou!

 Chegar junto da pátria e dizer o mesmo: o doce, o suavíssimo, o libérrimo te dana. Que me importo contigo, pátria? Que cresças ou aumentes, que sofras de inundação ou de seca, que vendas café ou compres ervilhas de lata, que simules eleições ou engulas golpes? Elege quem tu quiseres, o voto é teu, o lombo é teu. Queres de novo a espora e o chicote do peão gordo que se fez teu ginete? Ou queres o manhoso mineiro ou o paulista de olho fundo? Escolhe à vontade – que me importa o comandante se o navio não é meu? A casa é tua, serve-te, pátria, que pátria não tenho mais.

 Dizer te dana ao dinheiro, ao bom nome, ao respeito, à amizade e ao amor. Desprezar parentela, irmãos, tios, primos e cunhados, desprezar o sangue e os laços afins, me sentir como filho de oco de pau, sem compromissos nem afetos.

 Me deitar numa rede branca armada debaixo da jaqueira, ficar balançando devagar para espantar o calor, roer castanha de caju confeitada sem receio de engordar, e ouvir na vitrolinha portátil todos os discos de Noel Rosa, com Araci e Marília Batista. Depois abrir sobre o rosto o último romance policial de Agatha Christie e dormir docemente ao mormaço.

*

 Mas não faço. Queria tanto, mas não faço. O inquieto coração que ama e se assusta e se acha responsável pelo céu e pela terra, o insolente coração não deixa. De que serve, pois, aspirar à liberdade? O miserável coração nasceu cativo e só no cativeiro pode viver. O que ele deseja é mesmo servidão e intranqüilidade: quer reverenciar, quer ajudar, quer vigiar, quer se romper todo. Tem que espreitar os desejos do amado, e lhe fazer as quatro vontades, e atormentá-lo com cuidados e bendizer os seus caprichos; e dessa submissão e cegueira tira a sua única felicidade.

 Tem que cuidar do mundo e vigiar o mundo, e gritar os seus brados de alarme que ninguém escuta e chorar com antecedência as desgraças previsíveis e carpir junto com os demais as desgraças acontecidas; não que o mundo lhe agradeça nem saiba sequer que esse estúpido coração existe. Mas essa é a outra servidão do amor em que ele se compraz – o misterioso sentimento de fraternidade que não acha nenhuma China demasiado longe, nenhum negro demasiado negro, nenhum ente demasiado estranho para o seu lado sentir e gemer e se saber seu irmão.

 E tem o pai morto e a mãe viva, tão poderosos ambos, cada um na sua solidão estranha, tão longe dos nossos braços.

 E tem a pátria que é coisa que ninguém explica, e tem o Ceará, valha-me Nossa Senhora, tem o velho pedaço de chão sertanejo que é meu, pois meu pai o deixou para mim como o seu pai já lho deixara e várias gerações antes de nós, passaram assim de pai a filho.

 E tem a casa feita pela nossa mão, toda caiada de branco e com janelas azuis, tem os cachorros e as roseiras.

 E tem o sangue que é mais grosso que a água e ata laços que ninguém desata, e não adianta pensar nem dizer que o sangue não importa, porque importa mesmo. E tem os amigos que são os irmãos adotivos, tão amados uns quanto os outros.

 E tem o respeitável público que há vinte anos nos atura e lê, e em geral entende e aceita, e escreve e pede providências e colabora no que pode. E tem que se ganhar o dinheiro, e tem que se pagar imposto para possuir a terra e a casa e os bichos e as plantas; e tem que se cumprir os horários, e aceitar o trabalho, e cuidar da comida e da cama. E há que se ter medo dos soldados, e respeito pela autoridade, e paciência em dia de eleição. Há que ter coragem para continuar vivendo, tem que se pensar no dia de amanhã, embora uma coisa obscura nos diga teimosamente lá dentro que o dia de amanhã, se a gente o deixasse em paz, se cuidaria sozinho, tal como o de ontem se cuidou.

 E assim, em vez da bela liberdade, da solidão e da música, a triste alma tem mesmo é que se debater nos cuidados, vigiar e amar, e acompanhar medrosa e impotente a loucura geral, o suicídio geral. E adular o público e os amigos e mentir sempre que for preciso e jamais se dedicar a si própria e aos seus desejos secretos.

 Prisão de sete portas, cada uma com sete fechaduras, trancadas com sete chaves, por que lutar contra as tuas grades?

 O único desabafo é descobrir o mísero coração dentro do peito, sacudi-lo um pouco e botar na boca toda a amargura do cativeiro sem remédio, antes de o apostrofar: Te dana, coração, te dana!

 

Texto extraído do livro:

As 100 melhores crônica brasileira – Seleção Joaquim Ferreira dos Santos – Editora Objetiva