Rebaixando o amor ao estado de utilidade e… de tudo ficam os Resíduos – Carlos Drummond…

 
 
°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°° 
——————————
 
As coisas que amamos, as pessoas que amamos,
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.
Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se tornam,
absoluta, numa outra (maior) realidade.
Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nos cansamos por um ou outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.

Do sonho de eterno fica esse gosto acre na boca ou na mente,

sei lá, talvez no ar.

 

Carlos Drummond de Andrade

———————————————-

 

(…) Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

(…) E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

(Resíduo)

Carlos Drummond

°§§° 

A LÁGRIMA E O RIO

    

A Lágrima e o Rio

 

Milton Nascimento

 

Composição: Wilson Lopes / Milton Nascimento / Ricardo Nazar

Quando amanheceu toquei meu braço, no que?
E me desentendi…
Porque só eu, ali?
Gritam vizinhos
Água no chão, eu vi,
Que história é essa, cadê você?

Fui correndo à porta,
O rio estava ali
Um barranco sumiu
Saí gritando
Eu, minhas lágrimas e o rio
Os três num só
E as horas corriam
Que nem sei

Ó rio,
Me leva contigo e o meu coração
Éramos dois e não quero ser um
E desordenadamente, o barranco, as lágrimas
Lutei contra a força, perdi

Foi que o tempo arrastado em corredeira
Carregou meu amor, meu corpo também foi
Voltou enfim, nas águas da fonte mais pura
Das lágrimas que chorei por nós
As lágrimas, derramei demais
Que um rio amanheceu de nós
E um rio amanheceu…
Um rio amanheceu por nós

A sutileza… a simplicidade… da poesia de ADÉLIA PRADO

 
Casamento
 

 Adélia Prado

———————————–
Há mulheres que dizem:

Meu marido, se quiser pescar, pesque,

mas que limpe os peixes.

Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,

ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.

É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,

de vez em quando os cotovelos se esbarram,

ele fala coisas como "este foi difícil"

"prateou no ar dando rabanadas"

e faz o gesto com a mão.

O silêncio de quando nos vimos a primeira vez

atravessa a cozinha como um rio profundo.

Por fim, os peixes na travessa,

vamos dormir.

Coisas prateadas espocam:

somos noivo e noiva.

 
Texto extraído do livro "Adélia Prado – Poesia Reunida",

 Ed. Siciliano – São Paulo, 1991, pág. 252.

°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°°

Adélia Luzia Prado Freitas nacida em Divinópolis (MG).

Foi apresentada ao editor por Carlos Drummond de Andrade

que avaliou seus versos "fenomenais"  .

Teve seu  primeiro livro, Bagagem, publicado em 1976.

Em 1978 lançou,  coração disparado,

quando conquistou o Prêmio Jabuti,

 maior prêmio literário do Brasil.

=================

"O sonho encheu a noite
Extravasou pro meu dia
Encheu minha vida
E é dele que eu vou viver
Porque sonho não morre"

(Adélia Prado)